Asphalto // Favela Discos // janeiro 2018
7.0/10
Há uma certa beleza em retratar paisagens ou materiais enquanto som: desde a exatidão dos field recordings até às relatividades da música de forma livre ou composta por arquitecturas complexas e concisas, conseguimos conjurar uma panóplia de significados para aquilo que escutamos sem extraviarmos a interpretação que o artista concebeu. Antes de começar a ouvir um disco, tiro alguns minutos para conceptualizar aquilo que vou ouvir a partir dos nomes do artista e do álbum - desta vez, a vez calhou a Asphalto, disco de estreia de ASPHALTO.
Asfalto, no bom-e-velho curto-e-grosso, é uma mescla viscosa derivada do petróleo utilizada principalmente para pavimentar estradas. ASPHALTO, em toda a sua merecida extensão, é um cuidadoso retrato de sujidade e caos estabelecido sobre as (bonitas) confusões criadas por uma guitarra de presença inconstante e pelas batidas que Bor, a entidade por detrás de ASPHALTO, colecionou pela deepweb. Apesar do estruturado e claro conforto que o conceito de "batidas" pode criar, não pretendo levar ninguém a erros - este disco, apesar de estar longe de ter forma livre, constrói-se sobre a disrupção desse alegado conforto em fractais infinitamente pequenos que criam a sua própria organização, longe das convenções das quais foram arrancados.
ASPHALTO, todo ele encharcado em transpirações obscenas de reverberação, dá-se a conhecer ao mundo na forma de "JAPA", tema que abre o disco e introduz aquilo que nos faz companhia durante os próximos 52 minutos: dançabilidade e decadência, as únicas presenças garantidas nos temas do produtor baseado no Porto. Por entre bafos de outsider house e claras tendências pós-industriais, o trabalho de ASPHALTO pode ser destacado em vários momentos - "CAIXA" é o quarto tema desta estreia e não tem medo de representar aquele que é talvez um dos momentos de maior introspeção do álbum, entre elementos rítmicos presentes-o-suficiente para nos prenderem desde o primeiro instante até desenvolvimentos tribais e masturbações sintetizadas que se descondensam em sintetizadores pesados e ominosos e numa clara sensação de desfamiliaridade na forma de batidas. "OUTRA", mais curta - a música mais curta do disco, aquém dos 3 minutos - é um vislumbre de Lutto Lento, Actress ou Sophia Loizou: uma rave que teima em permanecer entre a proximidade que cria o bater-de-pé e a distância que nos convida a aproximar. "ROBOTUBE", por outro lado, é uma outra forma de rave - uma bonita visita ao tech house entre síncopes rítmicas e um discurso de John F. Kennedy contra a agressividade da imprensa.
As principais falha do disco são aquelas que lhe dá distinção - a versatilidade na execução de diferentes géneros e estilos e a sobrepopulação de sons em alguns momentos quebram a coesão que podia de outra forma elevar ASPHALTO a um começo de ano ainda melhor pela Favela Discos - ASPHALTO procurou garantir que cada faixa funciona per si às custas de uma mão mais brusca nas transições. Apesar disso, o primeiro registo do alterego de Bor continua a ser uma óptima viagem que dá boa forma à crudeza do asfalto, sem perder a fluidez que o acompanha.
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